Nem todo câncer é igual, e por que isso importa tanto no seu tratamento

alessandra.salgues • 21 de novembro de 2025

Depois do diagnóstico, uma dúvida aparece quase sempre: “o meu câncer é qual?”.


Muita gente imagina que todos os cânceres são parecidos que basta “descobrir onde está” para começar o tratamento. Só que a oncologia não funciona assim.


Câncer não é uma doença única.

É um grupo enorme de doenças diferentes, com comportamentos distintos, agressividades diferentes e necessidades específicas.


Um tumor no pulmão não é igual a um tumor no estômago.
Um câncer de mama não se trata como um câncer de pâncreas.
E até tumores no mesmo órgão podem ter características totalmente diferentes.


É por isso que, além dos exames de imagem, existe uma etapa fundamental: a análise do tecido, feita pela patologia.

Essa análise começa com a imunohistoquímica, um estudo que identifica quais proteínas estão presentes na superfície das células tumorais. Parece técnico, mas tem um papel gigantesco. A imunohistoquímica ajuda a responder perguntas decisivas:


• De onde esse tumor se originou?
• 
Qual o tipo exato dessa célula?
• 
Esse tumor se comporta como qual doença?
• 
O tratamento padrão para esse tipo é qual?


Isso importa porque o câncer não escolhe sempre o caminho “certinho”.
Às vezes, ele aparece em um local, mas se originou em outro. Um tumor que surge no fígado, por exemplo, pode não ser “um câncer do fígado”. Pode ser uma metástase de intestino, de pâncreas, de melanoma,  e cada um exige um tratamento totalmente distinto.


A imunohistoquímica, junto com os exames de imagem e o contexto clínico, é o que permite montar esse quebra-cabeça.
Ela define a 
identidade do tumor.

E conhecer essa identidade muda tudo.


É a partir dessa informação, associado aos exames de estadiamento, que o médico decide qual é o tratamento certo: cirurgia, quimioterapia, terapia alvo, imunoterapia, radioterapia, ou combinações. É também a partir dessa base que avaliamos o prognóstico, a resposta esperada e o objetivo do tratamento.


Se você recebeu um diagnóstico e quer entender melhor o que ele significa para o seu caso, posso te orientar com calma e clareza.

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Por alessandra.salgues 27 de novembro de 2025
Depois que identificamos qual é o tipo de câncer e de onde ele se originou , surge uma pergunta natural: “Existe algum exame que mostre qual é o melhor tratamento para mim?” A resposta é: às vezes sim, às vezes não. E é exatamente aqui que entram os biomarcadores . Biomarcadores são características biológicas do tumor. Eles funcionam como pistas internas que mostram: • como aquele tumor cresce, • quais vias ele usa para se multiplicar, • e quais tratamentos podem ou não funcionar melhor. Mas existe um ponto importante e pouco falado: nem todo tipo de câncer tem biomarcadores relevantes . Alguns tumores, como carcinoma basocelular e carcinoma espinocelular de pele , por exemplo, geralmente não dependem de alterações moleculares específicas para guiar o tratamento. Outros respondem mais ao padrão clínico e histológico do que a testes genéticos. Já em vários outros tumores, especialmente tumores gastrointestinais, pulmão e mama, os biomarcadores mudam completamente o caminho terapêutico. Um exemplo clássico é o câncer de estômago . Nesse tumor, avaliamos biomarcadores que influenciam diretamente o tratamento: • HER2 — quando positivo, permite o uso de terapias alvo como trastuzumabe (e hoje novas combinações ainda mais potentes). • PD-L1 (CPS) — ajuda a decidir se a imunoterapia será parte do tratamento, e em qual intensidade. • MSI-H / deficiência de reparo (dMMR) — quando presente, aumenta de forma marcante a resposta à imunoterapia. • Claudin 18.2 — biomarcador alvo de novas terapias, como zolbetuximabe, que mudou o manejo de uma parcela de pacientes. Perceba a lógica: o tipo de tumor vem primeiro; os biomarcadores vêm depois — e só quando fazem sentido para aquele câncer. Outros exemplos claros disso são tumores de pulmão, mama, cólon, esôfago, fígado e vias biliares, nos quais biomarcadores como EGFR, ALK, ROS1, RAS, BRAF, IDH1, FGFR2 , entre muitos outros, orientam tratamentos altamente específicos. Mas mesmo nesses tumores, existe variabilidade: nem todos os pacientes têm alterações identificáveis. Nem todo tumor é “direcionável”. Isso não significa falta de opção. Significa que a biologia daquele câncer é mais “clássica”, e o tratamento segue linhas já bem estabelecidas e eficazes. O mais importante é entender que biomarcadores não são bônus nem modismo: são ferramentas que ajudam a escolher o tratamento mais eficaz e, em muitos casos, evitar terapias desnecessárias. Quando estão presentes, eles personalizam. Quando não estão, seguimos pelo melhor caminho padrão, baseado em evidência. Biomarcadores não são apenas exames — são ferramentas que direcionam decisões importantes. Se você precisa avaliar quais deles fazem sentido no seu caso, estou à disposição.
Por alessandra.salgues 18 de novembro de 2025
Quando alguém recebe o diagnóstico de câncer, a primeira reação costuma ser um misto de choque e urgência. A sensação é de que tudo precisa ser feito imediatamente, como se cada minuto fosse uma corrida contra o tempo. Isso acontece porque o medo fala alto — e ele distorce a percepção. A verdade é outra. Na grande maioria dos casos, existe tempo. Tempo para entender. Tempo para respirar. Tempo para decidir. E tomar decisões informadas logo no início faz diferença. O primeiro passo é saber exatamente que tumor você tem . Isso significa entender o tipo, a origem e as características dele. É o laudo da biópsia que traz essa resposta, e ele é a base de todo o planejamento terapêutico. Depois vem o estadiamento — que é o processo de investigar se o tumor está localizado ou se já se espalhou. Isso envolve exames como tomografias, ressonâncias, PET-CT e, em alguns casos, avaliações mais específicas. Não é um excesso: é o mapa que orienta o caminho. Esse conjunto de informações forma o que, na oncologia, chamamos de diagnóstico completo . É ele que determina a melhor estratégia: cirurgia, terapia sistêmica, imunoterapia, combinação de tratamentos, ou até vigilância em casos selecionados. Outro ponto fundamental nesse momento inicial é a equipe . Ter um oncologista experiente ao seu lado, alguém com quem você possa conversar abertamente, tirar dúvidas, revisar opções e entender prós e contras, muda a trajetória emocional e prática de todo o processo. A escolha do médico não é detalhe — é parte do tratamento. E existe também a questão da segunda opinião , algo que muitos pacientes têm receio de pedir. Na verdade, é totalmente legítimo. Em doenças complexas, confirmar o plano terapêutico com outro especialista aumenta a segurança e clareza das decisões. Quando tudo isso está organizado, o medo dá espaço para entendimento. E entendimento devolve uma sensação essencial: controle.
Por alessandra.salgues 15 de novembro de 2025
Entender o câncer é o primeiro passo para recuperar o controle.